terça-feira, 2 de outubro de 2018

Outubro Rosa

Começou o Outubro Rosa. Mês da prevenção e consciencialização para o cancro de mama. Em 2016 foi para mim o Outubro negro. O Outubro que mudou a minha vida.
Neste Outubro não tenho laços cor de rosa. Não tenho molduras de perfil nem correntes de solidariedade. Não que os ache menos importantes, pois para mim todos os caminhos para se falar de cancro são válidos. Porém, desde que o cancro me bateu à porta, o cor de rosa passou a estar apenas nos laços, e apenas me ocorre uma forma menos cor de rosa de passar palavra.
Olhem para as vossas mamas!
Conheçam as vossas mamas!
Examinem e apalpem as vossas mamas!
Nenhuma reunião ou momento de preguiça é mais importante que os exames de rotina!
O cancro tem pezinhos de lã!
O cancro não acontece só aos outros!
Não devemos ceder ao medo de detectar algo suspeito nas nossas mamas. O medo de que seja algo de errado. O medo de que seja mesmo cancro. O medo do diagnóstico. O medo dos tratamentos.
A detecção precoce é a nossa melhor arma!
Por isso hoje é o dia de fazer o auto-exame e marcar aquela mamografia que andamos a adiar há uns meses.
Para que o Outubro seja sempre rosa!


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quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Ana 1 - cancro 0

Ana 1 - cancro 0
Dois anos. O mesmo percurso. A mesma meta. Dois cancros pelo meio.
A passagem da meta teve desta vez um gosto especial. É mais um passo para pôr o cancro no lugar dele e mostrar quem manda.
Notei as novas (e antigas) limitações do meu corpo e tomei nota. Não para me resignar mas para perceber como as vou ultrapassar. Para que para a próxima os 10Km possam ser mais curtos.
Os músculos que doem são os mesmos de há dois anos. Mas desta vez a cabeça ficou mais leve.
Há dois anos corria e pensava no resultado da biópsia que tardava em chegar, sabendo que era o aguardar de um cancro anunciado. Desta vez limpei a alma. Marquei mais um ponto a meu favor e mostrei ao cancro e a mim mesma que agora sou eu quem manda.
Agora resta não parar para que cada dia traga mais um ponto no meu marcador.
Ana 1 - cancro 0

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quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Cérebro de quimioterapia

Cérebro de quimioterapia é...
Lavar os dentes com Cicalfate pela manhã.
Não contente, mais pela noite massajar as cicatrizes com Colgate
O lado bom é que, para além de não ter cometido o mesmo erro duas vezes, fiquei com os dentes hidratados e as cicatrizes com cheirinho mentolado!

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terça-feira, 28 de agosto de 2018

Aniversário

1 ano.
A 28 de Agosto de 2017 fazia o meu último tratamento de radioterapia com um sentimento agridoce de quem chega à meta sem perceber bem qual é o prémio. De quem está feliz por ter chegado ao fim mas de repente se vê sem rede. De quem está farta de hospitais e médicos mas fica em pânico por passar mais de uma semana sem ir ao hospital nem ver um médico.
1 ano.
A 28 de Agosto de 2018 continuam os tratamentos. Porque o cancro não se cura, controla-se.
1 ano.
A 28 de Agosto de 2018 sei que odeio o cancro. Odeio o que o cancro nos faz. Odeio que ataque sem aviso. Odeio que controle tantas vidas. Odeio que leve tantas vidas.
A 28 de Agosto de 2018 morro de medo do cancro. Morro de medo que volte. Morro de medo que nunca tenha desaparecido e esteja apenas a fazer uma sesta como já o vi fazer.
A 28 de Agosto de 2018 estou farta do cancro. Estou farta de tratamentos, da menopausa precoce, das injecções com a seringa das farturas, das dores, do mau estar, das análises, dos exames, do pânico a cada sinal diferente do corpo.
Por isso, a 28 de Agosto de 2018 repete-se o sentimento agridoce. Comemoro e agradeço o privilégio de ter acesso a tratamentos que me ajudam a manter cancro sob controlo. Com a revolta e tristeza de aos 36 a vida ter achado que eu deveria aprender a (con)viver com o cancro.
1 ano já passou. Venham daí muitos mais! 

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Estou sim?

- Boa tarde, estou a falar com a Sra D Ana?
- Bom dia, está sim.
-Estou a ligar por parte da xxx e gostaria de saber se está satisfeita com os nossos serviços.
-Estou sim, obrigada.
- Óptimo! Gostaria então de lhe dar a conhecer o nosso novo sistema de assistência na doença. É muito bom, principalmente no caso de doença grave. Por exemplo doença oncológica, ....
- OK, pode parar por aí que já tenho.
-Ah, muito bem. Já tem um sistema de assistência na doença?
- Não, já tenho doença oncológica.
-(........................) OK D Ana. Agradeço a sua atenção. Se precisar de algo não hesite em contactar-nos e boa sorte.

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quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Mandei o cancro de férias

Mandei o cancro de férias.
O Facebook tem andado a chatear-me. "Olha que não dizes nada a ninguém há 42 dias" (a malta ainda acha que te deu o fanico...).
De vez em quando tenho necessidade de mandar o cancro de férias.
Já tentei mandá-lo para a Sibéria com bilhete só de ida, nadar com as baleias na costa do Alaska ou até aos nossos antípodas com direito a passagem directa pelo centro da terra.
Mas ele volta sempre.
Ou é porque tenho uma consulta. Ou porque me dói o corpo (e consequentemente a alma). Ou porque o fígado grita por socorro (já não aguenta mais viver comigo!). Ou porque as 1000 cicatrizes que me enfeitam não me deixam esquecer. Ou porque é difícil não entrar em pânico cada vez que aparece um sintoma que antes do cancro nem me faria parar para pensar mas que, depois do cancro, liga uns alarmes que o malandro activou e que gritam "Alerta Metástases, Alerta Metástases!!!".
E como estou cansada, desta vez dei-lhe um chapéu e o protector solar (que o cancro tem muito medo do sol pois ouviu dizer que pode ter um cancro e pela-se de ter que passar pelos tratamentos!) e mandei-o em busca dos encantos da silly season. Pode ser que ele se maravilhe com os sunsets, festas brancas e outras que tais e fique por lá eternamente!
Eu por cá continuo a trabalhar e a contar os dias para as minhas férias (de preferência sem o cancro atrás).
É que, parecendo que não, preciso de umas férias do cancro.

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quinta-feira, 12 de julho de 2018

Isto de ter cancro dá muito trabalho!

Isto de ter cancro dá muito trabalho!
O compromisso com o cancro é como um casamento “à séria”. Estamos juntos na alegria (dos relatórios de exame com um Negativo escarrapachado) e na tristeza (das angústias e medos que pairam sobre a nossa cabeça). Na saúde (a abençoada que preservamos) e na doença (esta não precisa de parêntesis). Na riqueza (de tudo o que temos de bom nesta vida) e na pobreza (que isto dos médicos, exames, tratamentos e comprimidos é caro que se farta!). Para o resto das nossas vidas (e que a minha seja longa e a do cancro nem por isso).
“Então mas agora estás bem, não é?” É! Não obstante que “estar bem” implique uns 7 comprimidos por dia ao ponto do fígado estar prestes a rejeitar o meu corpo e a zarpar rumo a um centro de desintoxicação.
“Estás com tão bom aspecto!” Felizmente o exterior nem sempre reflecte o que se passa lá por dentro, nas entranhas do nosso corpo massacrado. Começando pelas insónias, fruto das ansiedades que o cancro nos impõe e dos químicos que nos correm no sangue; passando pelo cansaço que teima em persistir, tornando cada tarefa rotineira num desafio ao nível do topo do Evereste e terminando nas dores que se instalam em cada articulação, em cada tendão e cada osso e que nos obrigam a não esquecer o que passa(ou) e que por vezes só parece não ter sido real.
E com tudo isto a nossa vida social divide-se entre consultórios, hospitais e outros que tais. “Ah, amanhã não posso que tenho consulta”; “Deixa ver na aplicação se tenho algum exame marcado para esse dia”; “Dia de injecção, não dá”.
Mas como em qualquer relação que se preze, esta história da submissão de um dos elementos perante o outro acaba mais tarde ou mais cedo por dar para o torto. E se o divórcio não for opção pois os protocolos assim não o permitem podemos sempre “dar um tempo”.
Por isso, ó cancro, hoje estás por tua conta que é dia de sardinha e bailarico!

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