quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Ana 1 - cancro 0

Ana 1 - cancro 0
Dois anos. O mesmo percurso. A mesma meta. Dois cancros pelo meio.
A passagem da meta teve desta vez um gosto especial. É mais um passo para pôr o cancro no lugar dele e mostrar quem manda.
Notei as novas (e antigas) limitações do meu corpo e tomei nota. Não para me resignar mas para perceber como as vou ultrapassar. Para que para a próxima os 10Km possam ser mais curtos.
Os músculos que doem são os mesmos de há dois anos. Mas desta vez a cabeça ficou mais leve.
Há dois anos corria e pensava no resultado da biópsia que tardava em chegar, sabendo que era o aguardar de um cancro anunciado. Desta vez limpei a alma. Marquei mais um ponto a meu favor e mostrei ao cancro e a mim mesma que agora sou eu quem manda.
Agora resta não parar para que cada dia traga mais um ponto no meu marcador.
Ana 1 - cancro 0

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quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Cérebro de quimioterapia

Cérebro de quimioterapia é...
Lavar os dentes com Cicalfate pela manhã.
Não contente, mais pela noite massajar as cicatrizes com Colgate
O lado bom é que, para além de não ter cometido o mesmo erro duas vezes, fiquei com os dentes hidratados e as cicatrizes com cheirinho mentolado!

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terça-feira, 28 de agosto de 2018

Aniversário

1 ano.
A 28 de Agosto de 2017 fazia o meu último tratamento de radioterapia com um sentimento agridoce de quem chega à meta sem perceber bem qual é o prémio. De quem está feliz por ter chegado ao fim mas de repente se vê sem rede. De quem está farta de hospitais e médicos mas fica em pânico por passar mais de uma semana sem ir ao hospital nem ver um médico.
1 ano.
A 28 de Agosto de 2018 continuam os tratamentos. Porque o cancro não se cura, controla-se.
1 ano.
A 28 de Agosto de 2018 sei que odeio o cancro. Odeio o que o cancro nos faz. Odeio que ataque sem aviso. Odeio que controle tantas vidas. Odeio que leve tantas vidas.
A 28 de Agosto de 2018 morro de medo do cancro. Morro de medo que volte. Morro de medo que nunca tenha desaparecido e esteja apenas a fazer uma sesta como já o vi fazer.
A 28 de Agosto de 2018 estou farta do cancro. Estou farta de tratamentos, da menopausa precoce, das injecções com a seringa das farturas, das dores, do mau estar, das análises, dos exames, do pânico a cada sinal diferente do corpo.
Por isso, a 28 de Agosto de 2018 repete-se o sentimento agridoce. Comemoro e agradeço o privilégio de ter acesso a tratamentos que me ajudam a manter cancro sob controlo. Com a revolta e tristeza de aos 36 a vida ter achado que eu deveria aprender a (con)viver com o cancro.
1 ano já passou. Venham daí muitos mais! 

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Estou sim?

- Boa tarde, estou a falar com a Sra D Ana?
- Bom dia, está sim.
-Estou a ligar por parte da xxx e gostaria de saber se está satisfeita com os nossos serviços.
-Estou sim, obrigada.
- Óptimo! Gostaria então de lhe dar a conhecer o nosso novo sistema de assistência na doença. É muito bom, principalmente no caso de doença grave. Por exemplo doença oncológica, ....
- OK, pode parar por aí que já tenho.
-Ah, muito bem. Já tem um sistema de assistência na doença?
- Não, já tenho doença oncológica.
-(........................) OK D Ana. Agradeço a sua atenção. Se precisar de algo não hesite em contactar-nos e boa sorte.

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quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Mandei o cancro de férias

Mandei o cancro de férias.
O Facebook tem andado a chatear-me. "Olha que não dizes nada a ninguém há 42 dias" (a malta ainda acha que te deu o fanico...).
De vez em quando tenho necessidade de mandar o cancro de férias.
Já tentei mandá-lo para a Sibéria com bilhete só de ida, nadar com as baleias na costa do Alaska ou até aos nossos antípodas com direito a passagem directa pelo centro da terra.
Mas ele volta sempre.
Ou é porque tenho uma consulta. Ou porque me dói o corpo (e consequentemente a alma). Ou porque o fígado grita por socorro (já não aguenta mais viver comigo!). Ou porque as 1000 cicatrizes que me enfeitam não me deixam esquecer. Ou porque é difícil não entrar em pânico cada vez que aparece um sintoma que antes do cancro nem me faria parar para pensar mas que, depois do cancro, liga uns alarmes que o malandro activou e que gritam "Alerta Metástases, Alerta Metástases!!!".
E como estou cansada, desta vez dei-lhe um chapéu e o protector solar (que o cancro tem muito medo do sol pois ouviu dizer que pode ter um cancro e pela-se de ter que passar pelos tratamentos!) e mandei-o em busca dos encantos da silly season. Pode ser que ele se maravilhe com os sunsets, festas brancas e outras que tais e fique por lá eternamente!
Eu por cá continuo a trabalhar e a contar os dias para as minhas férias (de preferência sem o cancro atrás).
É que, parecendo que não, preciso de umas férias do cancro.

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quinta-feira, 12 de julho de 2018

Isto de ter cancro dá muito trabalho!

Isto de ter cancro dá muito trabalho!
O compromisso com o cancro é como um casamento “à séria”. Estamos juntos na alegria (dos relatórios de exame com um Negativo escarrapachado) e na tristeza (das angústias e medos que pairam sobre a nossa cabeça). Na saúde (a abençoada que preservamos) e na doença (esta não precisa de parêntesis). Na riqueza (de tudo o que temos de bom nesta vida) e na pobreza (que isto dos médicos, exames, tratamentos e comprimidos é caro que se farta!). Para o resto das nossas vidas (e que a minha seja longa e a do cancro nem por isso).
“Então mas agora estás bem, não é?” É! Não obstante que “estar bem” implique uns 7 comprimidos por dia ao ponto do fígado estar prestes a rejeitar o meu corpo e a zarpar rumo a um centro de desintoxicação.
“Estás com tão bom aspecto!” Felizmente o exterior nem sempre reflecte o que se passa lá por dentro, nas entranhas do nosso corpo massacrado. Começando pelas insónias, fruto das ansiedades que o cancro nos impõe e dos químicos que nos correm no sangue; passando pelo cansaço que teima em persistir, tornando cada tarefa rotineira num desafio ao nível do topo do Evereste e terminando nas dores que se instalam em cada articulação, em cada tendão e cada osso e que nos obrigam a não esquecer o que passa(ou) e que por vezes só parece não ter sido real.
E com tudo isto a nossa vida social divide-se entre consultórios, hospitais e outros que tais. “Ah, amanhã não posso que tenho consulta”; “Deixa ver na aplicação se tenho algum exame marcado para esse dia”; “Dia de injecção, não dá”.
Mas como em qualquer relação que se preze, esta história da submissão de um dos elementos perante o outro acaba mais tarde ou mais cedo por dar para o torto. E se o divórcio não for opção pois os protocolos assim não o permitem podemos sempre “dar um tempo”.
Por isso, ó cancro, hoje estás por tua conta que é dia de sardinha e bailarico!

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quinta-feira, 21 de junho de 2018

O tempo está todo marado!

O tempo está todo marado!
Porém, correndo o risco de ser um pouquinho egocêntrica, gosto de acreditar que o Universo me está a mostrar como toda uma estação do ano pode ser tal e qual uma das minhas noites no que a temperaturas diz respeito.
Passo a explicar:
Adormeço com o pijaminha de Inverno, as meias de lã e uma ou duas mantas bem quentes. Encolho-me o mais que posso pois, mesmo estando 30°C lá fora, a minha desaparecida tiróide levou com ela a capacidade de sentir calor.
E assim adormeço. Num inverno contínuo, faça chuva ou faça sol.
E de repente é Verão! Lá vem o afrontamento das 3h (sim, os meus têm pontualidade britânica) e começam as mantas a saltar! Termina a sensação de ter adormecido enroscada num glaciar e institivamente espero a passagem de alguma cáfila perdida pelo deserto onde o meu quarto repentinamente caiu.
Até que volta tudo ao mesmo. São 2 minutos de Verão, voltando o Inverno a reinar sem por isso passarmos pela Primavera ou Outono.
É tal e qual o nosso clima ou não é?
Por isso hoje, pelas 11h07, espero ter um belo afrontamento que me dê aquele cheirinho a Verão!
E no meio desta confusão há que nunca esquecer que é nos dias em que chuva se cruza com o sol que aparecem os arco-íris. 

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🌈